Cuidado com as Palavras: O Que Não Dizer a Pessoas em Sofrimento Mental
Vivemos em uma sociedade onde as palavras possuem um poder imenso, capaz de transformar a maneira como nos sentimos e reagimos ao mundo. Quando tratamos de pessoas que enfrentam algum tipo de sofrimento mental, esse poder se torna ainda mais sensível e crucial. Frases comuns como “Depressão é frescura” ou “Você precisa ser forte” podem parecer inofensivas para quem as pronuncia, mas para quem está passando por uma crise psicológica, elas podem agravar o sofrimento, aumentando o estresse, a tristeza e o isolamento social.
O Impacto das Palavras no Cérebro
De acordo com especialistas em neurociência e psicologia, o que falamos influencia diretamente o funcionamento do cérebro. A neurocientista Emily Pires explica que as palavras são mais do que sons; são estímulos que ativam áreas do cérebro ligadas à emoção, memória e resposta ao estresse. Expressões negativas ou agressivas ativam estruturas como a amígdala, que controla o medo e a ansiedade, aumentando a produção de cortisol — o hormônio do estresse. Isso pode gerar irritabilidade, dificuldade de concentração e intensificar sintomas como a ansiedade e a depressão.
Por outro lado, palavras de apoio e validação estimulam o córtex pré-frontal, responsável pela regulação emocional, e liberam neurotransmissores como dopamina e serotonina, associados ao bem-estar. Por meio da repetição, as palavras moldam a neuroplasticidade cerebral, ou seja, a capacidade do cérebro de se adaptar às experiências. Portanto, uma linguagem cuidadosa pode promover maior equilíbrio emocional e contribuir para a recuperação de quem sofre com transtornos mentais.
A Perspectiva Psicanalítica
Para além da neurociência, a psicanálise também destaca o valor das palavras no sofrimento psíquico. A psicóloga Dalila Amorin, mestranda em Estudos Psicanalíticos pela UFMG, reforça a ideia de Freud de que mente e corpo estão intimamente ligados. A linguagem funciona como uma ponte entre o emocional e o físico, podendo manifestar angústias muito profundas no corpo. Palavras podem tanto ferir deixando marcas difíceis de superar, quanto ajudar a verbalizar dores, abrir diálogos e buscar novos significados para essas experiências.
O Que Evitar e Como Agir ao Falar com Quem Sofre
Com base nesses estudos, fica claro que não existe uma fórmula mágica para saber exatamente o que dizer em todas as situações, pois cada pessoa reage de maneira diferente. Contudo, algumas orientações são essenciais para garantir uma comunicação respeitosa e acolhedora:
- Evite minimizar a dor: frases que desmerecem o sofrimento, como “isso é frescura” ou “tem gente pior que você”, podem aumentar o isolamento emocional da pessoa.
- Não imponha soluções simplistas: não diga que a superação depende apenas de força de vontade ou que a pessoa deve “se esforçar mais”.
- Pratique a escuta ativa: aprenda a se calar e ouvir com atenção, permitindo que a pessoa fale sobre o que sente sem julgamento.
- Use palavras de validação e apoio: reconheça o sofrimento, ofereça empatia e encorajamento sem pressionar por respostas imediatas.
Segundo a doutora em Saúde Mental Mariana Barbosa Pereira, muitas vezes o mais importante é respeitar o silêncio e dar espaço para o outro expressar suas emoções da forma e no tempo que conseguir.
Por Que Isso Importa?
As palavras que escolhemos têm o poder de influenciar não só as emoções, mas também a saúde física e psíquica das pessoas. Em um contexto de sofrimento mental, onde o mundo interno pode estar à flor da pele, a sensibilidade na comunicação é um gesto de cuidado e respeito que pode fazer toda a diferença.
Além disso, entender a importância da linguagem contribui para a construção de um ambiente social mais inclusivo, empático e livre de preconceitos sobre saúde mental.
Reflexão Final
Ao pensar no impacto das palavras e em como podemos melhorar a forma de comunicar com quem sofre, fica a pergunta: como você acredita que pode contribuir para um diálogo mais acolhedor e respeitoso sobre saúde mental no seu dia a dia?



