Auto-sabotagem e baixa autoestima: como quebrar o ciclo interno que nos prende
Há momentos na vida em que parece que somos o nosso pior inimigo. Sabemos o que queremos, temos sonhos, desejos e planos, mas, por alguma razão, sabotamos as nossas próprias oportunidades. Adiamos, desistimos antes de tentar, escolhemos pessoas e situações que nos magoam e repetimos padrões que já sabemos que não funcionam. Este comportamento tem nome: auto-sabotagem, e está profundamente ligado a um tema central da saúde emocional: a autoestima.
Compreender por que fazemos isso, de onde vem essa voz interna crítica e como ela se alimenta de uma baixa autoestima é o primeiro passo para quebrar esse ciclo e construir uma relação mais saudável connosco mesmos.
O que é auto-sabotagem e por que a praticamos?
A auto-sabotagem pode ser entendida como qualquer comportamento, pensamento ou atitude que vai contra os nossos próprios interesses, objetivos e valores. À primeira vista, parece irracional, mas, na prática, muitas vezes é uma tentativa (mal adaptada) de evitar dor emocional, rejeição, fracasso ou vergonha.
O nosso cérebro gosta do que é familiar. Isso significa que, se passámos anos a alimentar crenças negativas sobre nós mesmos, tais como “não sou suficientemente bom” ou “eu estrago tudo”, esses pensamentos criam circuitos neurais fortes e automáticos. Com o tempo, mesmo quando surgem novas oportunidades, acabamos por reagir de acordo com essas antigas programações internas.
Assim, a auto-sabotagem não é falta de vontade ou preguiça; é, muitas vezes, um mecanismo de sobrevivência antigo, que um dia fez sentido, mas que hoje já não nos protege – apenas nos limita.
Como a baixa autoestima alimenta a auto-sabotagem
A baixa autoestima é uma visão negativa e distorcida de quem somos. Em vez de nos vermos como seres humanos com qualidades, defeitos e potencial de crescimento, olhamo-nos através de lentes de crítica e desvalorização. Isso cria um terreno fértil para a auto-sabotagem.
Crenças internas que favorecem a auto-sabotagem
- “Não sou digno de coisas boas”: quando acreditamos que não merecemos amor, sucesso ou reconhecimento, é comum afastarmos pessoas saudáveis, recusarmos oportunidades ou aceitarmos menos do que aquilo que realmente queremos.
- “Vou falhar de qualquer forma”: o medo de falhar leva à procrastinação. Ao adiar, protegemos o ego momentaneamente, mas acabamos por confirmar a profecia: não tentamos, não conseguimos, logo “estava certo, não era capaz”.
- “Se me conhecerem de verdade, vão rejeitar-me”: esta crença leva a comportamentos de fuga, perfeccionismo extremo ou dificuldade em ser autêntico nas relações.
Essas crenças não surgem do nada. Elas são, muitas vezes, o resultado de experiências passadas, especialmente na infância e adolescência.
De onde vem a baixa autoestima?
A autoestima é construída ao longo da nossa história. Alguns fatores que contribuem para uma autoestima fragilizada incluem:
1. Experiências na infância
Crianças que crescem sob críticas constantes, comparações negativas ou falta de afeto podem internalizar a ideia de que são “erradas”, “insuficientes” ou “sempre em falta”. Quando os erros são sempre destacados e os esforços raramente reconhecidos, a mensagem que fica é: “não importa o que eu faça, nunca é bom o suficiente”.
2. Traumas emocionais
Bullying, rejeições amorosas marcantes, abusos emocionais ou físicos e perdas importantes podem deixar feridas profundas. Estas experiências muitas vezes criam barreiras emocionais, alimentando a vergonha, a culpa e a sensação de não pertencer, fatores que alimentam tanto a baixa autoestima quanto a auto-sabotagem.
3. Pressão social e comparação constante
Vivemos numa sociedade que exibe padrões irreais de beleza, sucesso e felicidade, intensificados pelas redes sociais. Ao comparar a própria vida com versões editadas da vida dos outros, é fácil sentir-se “menos”. Esta comparação constante mina a autoconfiança e reforça a autocrítica.
4. Padrões de pensamento e personalidade
Pessoas com tendência ao perfeccionismo ou à autocrítica severa frequentemente transformam pequenos erros em grandes falhas. Dificultam reconhecer conquistas, focando apenas no que falta. Este olhar distorcido contribui tanto para a baixa autoestima quanto para a dificuldade em avançar.
Sinais de que você pode estar a auto-sabotar
Identificar a auto-sabotagem é essencial para começar a mudar. Alguns sinais comuns incluem:
- Crítico interior em volume máximo: pensamentos recorrentes como “sou fraco”, “não vai funcionar”, “vou estragar tudo outra vez”. Ter um crítico interno é humano, mas quando essa voz é dominante, algo precisa de atenção.
- Procrastinação frequente: adiar tarefas importantes por medo de falhar ou de não ser perfeito. No fim, a procrastinação gera resultados piores, reforçando a baixa autoestima.
- Evitar situações emocionalmente desafiadoras: não se expor a novos relacionamentos, oportunidades profissionais ou experiências por medo de sofrer, ser rejeitado ou dececionar-se.
- Uso de substâncias para “anestesiar” emoções: recorrer a álcool ou outras drogas para suportar situações sociais, aliviar ansiedade ou “esquecer” problemas é um sinal de que há uma dor interna a ser abafada, não tratada.
- Ter dificuldade em dizer não: viver para agradar os outros, aceitar tudo para evitar conflitos ou rejeição, mesmo quando isso vai contra as próprias necessidades e limites.
- Viver como “salvador” dos outros: cuidar excessivamente das pessoas pode ser uma fuga para não encarar os próprios conflitos internos, além de ser um sinal de relações codependentes.
Como começar a quebrar o ciclo da auto-sabotagem
Transformar este padrão não acontece da noite para o dia, mas é totalmente possível com consciência, prática e, muitas vezes, apoio profissional. Alguns caminhos importantes incluem:
1. Desenvolver autoconhecimento
Perceba quando e como se auto-sabota. Que situações disparam esses comportamentos? O que sente antes de procrastinar, beber em excesso ou aceitar algo que não quer? Ferramentas como escrita de diário, meditação e terapia ajudam a mapear estes gatilhos.
2. Praticar a autocompaixão
Em vez de se atacar quando erra, experimente falar consigo mesmo como falaria com um amigo querido: com respeito, compreensão e gentileza. A autocompaixão enfraquece a voz do crítico interno e permite construir uma autoestima mais estável.
3. Estabelecer metas realistas e progressivas
Metas inalcançáveis só alimentam a frustração. Comece com objetivos menores, claros e possíveis. Cada pequena conquista é uma prova concreta de capacidade, ajudando a reprogramar a crença de que “não consigo”.
4. Reforçar limites saudáveis
Aprender a dizer “não” é uma forma poderosa de autoestima. Significa reconhecer o próprio valor, tempo e energia. Estabelecer limites não é egoísmo; é autocuidado.
5. Procurar apoio profissional
Em muitos casos, a auto-sabotagem está ligada a feridas emocionais profundas. Um psicólogo ou terapeuta pode ajudar a compreender a origem desses padrões, trabalhar traumas e ensinar estratégias para lidar melhor com emoções difíceis, construindo uma nova forma de se relacionar consigo mesmo.
Reconstruindo a autoestima: um processo de dentro para fora
Fortalecer a autoestima não é apenas repetir frases positivas ao espelho. É um processo de reconhecer o próprio valor, enfrentar o vazio interior e aprender novas formas de se tratar. Assim como uma vez aprendemos a duvidar de nós, também podemos aprender a confiar novamente.
A boa notícia é que o poder de curar a autoestima ferida está, em grande parte, dentro de si. Com consciência, prática e, se necessário, ajuda especializada, é possível deixar de ser o próprio inimigo e tornar-se o seu melhor aliado.
E você, já identificou alguma forma de auto-sabotagem na sua vida e percebe como ela se relaciona com a sua autoestima? Conte nos comentários a sua experiência ou a maior dificuldade que sente ao tentar mudar estes padrões.

